Anatomia del corpo humano (1560)
Autor: Juan Valverde de Amusco
Acervo: National Library of Medicine.

Fundamentos de Anatomia

Estes fundamentos, relacionados abaixo, devem ser entendidos (e fixados na memória) por quem está interessado no estudo da Anatomia.

Fundamento significa base, alicerce, apoio. Se você não fundar ou fundamentar o seu conhecimento com um conhecimento prévio que servirá como base, alicerce ou apoio a ele, você estará queimando uma etapa de seu estudo e, conseqüentemente, de sua formação.

Fundamento 1 - A porção externa do osso é a substância compacta ou lâmina cortical. A interna é formada pela substância esponjosa,um emaranhado de trabéculas que delimitam espaços intercomunicantes preenchidos por medula óssea. Os canais ósseos, os seios paranasais e os alvéolos dentais, apesar de serem internos, são formados por substância compacta. Partes delgadas de alguns ossos são formadas apenas de substância óssea compacta. O osso é organizado por meio de sua forma externa e estrutura interna para dar maior resistência com a mínima quantidade de material, mostrando ser muito apropriadamente adaptado à função mecânica. No osso esponjoso, a orientação trabecular é fortemente influenciada pelas forças mecânicas às quais o osso está sujeito. As trabéculas são dispostas de maneira orientada, formando trajetórias, para desempenhar demandas funcionais; o mesmo acontece com o osso compacto através de seu espessamento e de sua orientação, para servir como local de concentração e dissipação de forças.

Fundamento 2 - O osso do ser vivente é dinâmico. Renova-se permanentemente pela ação de células de formação e de reabsorção, em um processo chamado remodelação, que perdura por toda a vida do indivíduo. Esta acentuada capacidade de remodelação exige que o osso seja vascularizado e suprido por nervos. É claro que as células ósseas, os osteócitos, precisam receber cálcio e nutrição e por isso são vascularizadas. O endósteo e a medula óssea também necessitam de sangue. Um pequeno vaso está sempre presente no interior de um osteônio (sistema haversiano) da cortical óssea ou sobre as lamelas das trabéculas do osso esponjoso. De fato, artérias e veias (e nervos vasomotores e sensitivos que as acompanham) situam-se não apenas na superfície óssea (junto ao periósteo), mas também penetram no seu interior. Assim, ao se fraturar, um osso provoca hemorragia local, fundamental no processo de consolidação da fratura. Os vasos periostais podem penetrar no osso subjacente. Uma área sem periósteo está ameaçada de necrose. Se você examinar com cuidado um osso longo verá, além dos forames nutrícios, vários forames vasculares, principalmente nas epífises (nas áreas não cobertas por cartilagem articular). A mandíbula também possui grande quantidade de forames vasculares, geralmente preenchidos por veias.

Fundamento 3 - A membrana de revestimento dos ossos chama-se periósteo. É fibrosa, elástica, de cor leitosa, mais espessa e menos aderente na criança que no adulto. Somente não cobre os ossos nas superfícies articulares. O periósteo é constituído por duas camadas, uma externa de tecido conjuntivo fibroso e outra interna com células osteoprogenitoras, portanto, com capacidade osteogênica, e responsável pelo crescimento do osso em diâmetro. Esta camada está firmemente fixada ao osso por fibras colágenas (fibras perfurantes, porque penetram no osso). As cavidades ósseas são revestidas por uma fina camada de tecido conjuntivo chamada endósteo. É o caso do canal medular e dos espaços intertrabeculares. Uma área sem periósteo está ameaçada de necrose. Na cirurgia tem-se que conservar o periósteo com sua rede periostal, quando se deseja uma regeneração óssea.

Fundamento 4 - No periósteo inserem-se tendões (o tendão é contínuo com o periósteo, mas algumas fibras tendíneas penetram no osso) e ligamentos. O tendão e o ligamento, bem como a aponeurose e a fáscia, são um tecido conjuntivo denso regular, no qual predominam as fibras colágenas. As fibras colágenas são compostas principalmente pela proteína colágeno.

É um tecido fibroso, com fibroblastos entre os feixes de fibras. Não tem fibras elásticas (somente o ligamento das articulações tem um pouco).

Fundamento 5 - O músculo geralmente ultrapassa uma articulação, produzindo nela movimentos variados. Ao passar pela articulação o músculo estará preso, por suas extremidades, a pelo menos dois ossos (às vezes prende-se em cartilagem, ligamento, rafe, fáscia, pele ou membrana interóssea). Quando se contrai ele aproxima uma extremidade muscular da outra, modificando o ângulo da articulação. Uma das extremidades é a que verdadeiramente se move (e com isso movimenta o osso no qual se insere) e a outra permanece fixa ou menos móvel. A extremidade fixa é conhecida como origem ou ponto fixo e a móvel como inserção ou ponto móvel.

Em alguns movimentos do corpo, origem e inserção são permutáveis (pode haver inversão entre elas).

Os músculos que se situam abaixo de seus pontos de inserção tendem a abaixar esse local de inserção. Ex.: os músculos retos da cabeça originam-se abaixo da cabeça, nas duas primeiras vértebras cervicais e se inserem acima, na própria cabeça, e quando agem, abaixam-na. Os retos anteriores, devido à sua posição, abaixam flexionando-a e os posteriores abaixam estendendo-a. O músculo esterno-hióideo, que fica abaixo de seu ponto de inserção (móvel), puxa esse ponto (osso hióide) para baixo. Depreende-se daí que o abaixador do ângulo da boca tem origem (e situa-se) abaixo do ângulo da boca. É claro! O músculo não é um halterofilista; não faz levantamento de peso. Em outras palavras, ele não se estica; apenas se contrai.

Os músculos que se situam acima de seus pontos de inserção tendem a elevar esse local de inserção. Ex.: o músculo glúteo máximo, que se origina acima de sua área de inserção no fêmur, estende a coxa, elevando-a; o quadríceps femoral, que se situa quase todo na coxa, insere-se na tíbia e estende a perna, elevando-a; o bíceps braquial, músculo do braço, insere-se mais abaixo, no antebraço, e sua função é flexioná-lo, elevando-o. O levantador do véu palatino tem origem no osso temporal, acima do palato; a sua extremidade inferior prende-se no palato, elevando-o.

A mandíbula é elevada por músculos que estão acima dela. Aqueles que estão atrás de seus locais de inserção, a retraem. Ela desloca-se para frente por ação dos músculos que estão à frente de suas próprias áreas de inserção, tal como acontece também com o osso hióide pela ação do gênio-hióideo, que está à frente dele.

O movimento de lateralidade da mandíbula é um pouco mais complicado. Não é como o bucinador que lateraliza o ângulo da boca ou como a escápula que se move medialmente pela ação do rombóide maior, que toma origem (e tem seu ventre) medialmente a ela. O pterigóideo lateral aduz (e adianta) um dos lados, de tal modo que o outro lado é abduzido (move-se lateralmente).

Todavia, essa regra não vale para todos os casos indistintamente. Há casos específicos que precisam ser tratados especificamente. Por exemplo, a mandíbula não é abaixada a poder de músculos que se situariam abaixo de seus pontos de inserção.

Fundamento 6 - Como as superfícies articulares ósseas precisam deslizar e girar em movimentação livre uma sobre a outra, elas são recobertas por cartilagem articular(geralmente hialina). Além de diminuir o atrito e conseqüentemente o desgaste entre os ossos, a cartilagem facilita a movimentação por ser bem lisa e úmida. Outra função da cartilagem articular é absorver choques, uma vez que os ossos estão em constante e mútua pressão. De fato, nos locais de maior pressão a cartilagem é mais espessa.

Por serem avasculares, as cartilagens das articulações não sofrem inflamação e nem metástase cancerosa. Sua nutrição vem do líquido sinovial e do plasma que transuda da rede sanguínea intra-óssea e que atinge a sua parte profunda.

A cartilagem hialina tem pouca capacidade regenerativa quando lesada. Neste sentido, a fibrocartilagem leva vantagem devido à sua grande potencialidade de regeneração.

Na ATM existe cartilagem hialina abaixo da camada superficial fibrosa com células que produzem tanto matriz cartilagínea quanto óssea. Portanto, a cartilagem articular é o tecido avascular denso fibroso, e a cartilagem de crescimento, a cartilagem hialina, a qual ocasiona remodelamento ativo em resposta às pressões.

Adaptando-se bem às faces articulares, o disco articular regulariza a discrepância anatômica existente entre elas, absorve choques e promove uma movimentação suave da ATM. Apesar de ser fibroso e não-hialino, o disco articular não se regenera ou se remodela após sofrer danos.

Fundamento 7 – As comunicações existentes entre os vasos são chamadas anastomoses. Etimologicamente, esta palavra é de origem grega: ana, significa em partes, através e stoma, boca. Como o lume (abertura, boca) de um vaso se comunica com o de outro, assim boca a boca, como em um beijo com bocas abertas, a palavra anastomose (arterial, venosa e linfática) fica bem entendida. Entre nervos, que não têm lume, as comunicações são chamadas conexões. Seria como um beijo de bocas fechadas. Os ramos anastomóticos constituem uma via acessória para a vascularização (anastomoses arteriais) ou para a drenagem (anastomoses venosas e linfáticas). As anastomoses são particularmente importantes quando ocorre um bloqueio ou obstrução do vaso principal (que pode ser fisiológica ou patológica) e se estabelece uma circulação colateral. Como exemplos de interrupção fisiológica, temporária, são os desvios do sangue para outro território que está precisando mais dele, devido à vasoconstrição arterial em um local estratégico e o desvio do sangue para um lado de uma articulação devido a exagerada contração muscular no outro lado.

Se a obstrução patológica é abrupta e permanente, a área a ser suprida fica sem vitalidade porque não há tempo de se estabelecer um circulação colateral. Esta se estabelece quando a obstrução é lenta e gradual, quando os vasos colaterais aumentam seu calibre e vasos neoformados a partir de capilares próximos e de vasos dos vasos (vasa vasorum) de artérias adjacentes. A circulação colateral é mais facilmente estabelecida nos jovens do que nos velhos.

Há comunicações entre arteríolas e vênulas, sem que o sangue passe pelos capilares. Isso ocorre em tecidos de grande metabolismo ou em condições de termorregulação, para se opor ao frio. Assim, o retorno venoso é facilitado pela maior pressão dentro das vênulas. Anastomoses arteriolovenulares estão presentes nos lábios, palato mole, língua, glândulas salivares e em muitas partes do corpo, principalmente próximo às articulações. Característica interessante dessas anastomoses é o seu controle por nervos vasomotores (fibras eferentes simpáticas), os quais regulam a passagem do sangue, ora abrindo, ora fechando as passagens, de acordo com as necessidades.

Fundamento 8 – Os vasos linfáticos têm suas raízes (capilares linfáticos) nos interstícios teciduais (no tecido conjuntivo do corpo e dos órgãos) e, a partir daí, vão confluindo para formar coletores linfáticos cada vez maiores. Uma característica do capilar linfático é o seu início em fundo cego e o seu maior calibre em comparação com o sangüíneo.

O líquido intersticial recolhido entre as células e fibras do organismo exuda do plasma do sangue, quando este passa pelos capilares, com finalidade nutritiva. Com o metabolismo celular, produtos residuais são excretados nesse líquido, cuja maior porção retorna para os capilares sangüíneos. Uma menor parte não retorna e permanece entre os tecidos. É essa parte que é coletada pelos capilares linfáticos e que, após entrar neles passa a se chamar linfa, a qual é levada de volta para o sangue. Tal como o sangue, a linfa é composta de plasma e de elementos figurados, principalmente proteínas e linfócitos, e também tem a capacidade de se coagular.

Os linfonodos filtram a linfa e produzem anticorpos para combater as infecções. Na filtragem ficam retidos em sua grade fibrorreticular com células reticulares, bactérias, células cancerosas, partículas de carbono, linfócitos gastos, enfim, corpos estranhos. Os linfonodos produzem linfócitos, que são incorporados à corrente sangüínea.

Fundamento 9 – No dia seguinte da secção de um nervo, os axônios do coto proximal começam a se regenerar, formando filamentos que se ramificam e crescem. O nervo de um músculo, ao ser levado, leva o músculo desnervado a uma paralisia, que vai cedendo aos poucos se houver regeneração nervosa em um ano ou pouco mais. Após isso, as fibras musculares são substituídas por tecido conjuntivo, principalmente o adiposo.

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