Fraturas do esqueleto facial

Miguel Carlos Madeira
Extraído de Anatomia da Face, 5ª Edição, Editora Sarvier


Apesar de serem reforçados por esteios ou contrafortes, conhecidos como pilares e trajetórias (ver subcapítulo “Biomecânica do esqueleto facial”), os ossos da face fraturam-se com freqüência após fortes golpes por agressão ou por acidente. Dentes inclusos, cistos, tumores, osteomielite podem predispor os maxilares (principalmente a mandíbula) a fraturas, notadamente nos indivíduos desdentados e idosos (osteoporose senil).

A fratura pode ser simples quando envolve somente o osso, ou composta quando envolve também a pele ou a mucosa, com ou sem perda de substância. É múltipla quando há mais de um traço de fratura e quando ocorre um grande número de pequenos fragmentos (como nos tiros de arma de fogo) é chamada fratura cominutiva.

Os dois ossos mais proeminentes da face e, conseqüentemente, muito sujeitos a traumatismos diretos são o nasal e o zigomático. O primeiro geralmente sofre fratura transversa, e o outro, afundamento (deslocamento por disjunção ao nível das suturas) e fratura do arco zigomático.

Fraturas menores dos processos alveolares, principalmente na região dos dentes anteriores, são muito comuns, seja por choques ou pancadas, seja como conseqüência pós-operatória das exodontias. É o que pode acontecer com a tuberosidade da maxila nas extrações do terceiro molar ou com qualquer dente quando há anquilose dentoalveolar.

A mandíbula fica também exposta a golpes de várias naturezas e suas fraturas não são incomuns (Fig. 1). Apesar de possuir áreas de reforço, como por exemplo a protuberância mentoniana, que dificultam ou impedem as fraturas, possui também áreas de debilidade criadas pelos dentes, principalmente o canino e o terceiro molar (especialmente quando está incluso). Assim, fraturas do corpo da mandíbula costumam ser mais freqüentes ao lado do mento, em linha com o longo alvéolo do canino, e na área do terceiro molar em direção ao ângulo da mandíbula.





Figura1 - Locais de fratura mais comuns na mandíbula.




No ramo da mandíbula, as mais freqüentes são as fraturas do colo, geralmente bilaterais, devido a golpes recebidos no mento.

Ainda que o osso timpânico também possa ser afetado (otorragia), o que mais ocorre é a sua proteção pelo processo retroarticular, que se interpõe entre a cabeça da mandíbula e o osso timpânico. Na maioria das vezes, as fraturas são extracapsulares, mas podem ser intracapsulares, com ou sem lesão da articulação temporomandibular. As fraturas intracapsulares muito altas resultam em um fragmento ósseo muito pequeno com a vascularização comprometida e que não se consolida mais.

O restante do ramo da mandíbula é bem protegido por músculos. Mesmo assim ocorrem, às vezes, fraturas transversais do processo coronóide.

As fraturas dos terços médio e superior da face são quase sempre transversais e envolvem vários ossos. Os traços de fratura seguem as linhas de menor resistência, situadas entre pilares e arcos de reforço. O francês Le Fort classificou-as em três tipos notavelmente constantes (Fig. 2):





Figura 2 - Fraturas dos terços médio e superior da face segundo a classificação de Le Fort: a mais baixa é Le Fort I; a do meio, Le Fort II; a mais alta, Le Frort III.




Le Fort I – traço de fratura horizontal do maxilar (maxilas) desde a base da abertura piriforme até os processos pterigóides, passando logo acima dos ápices dos dentes superiores; separa processos alveolares, dentes e palato do resto do viscerocrânio.

Le Fort II – envolve, de ambos os lados, o osso nasal, processo frontal da maxila, lacrimal, soalho da órbita, processo zigomático da maxila (superfície póstero-lateral do seio maxilar) e processo pterigóide; em conseqüência, desloca um fragmento que inclui a porção central do viscerocrânio, palato e processo alveolar.

Le Fort III – uma linha de fratura horizontal que passa, de cada lado, pela sutura frontonasal, sutura frontomaxilar, lacrimal, etmóide, fissura orbital superior, asa maior do esfenóide e sutura frontozigomática; o enorme fragmento resultante dessa disjunção craniofacial é o próprio viscerocrânio, que se separa completamente do neurocrânio quando há fratura concomitante do arco zigomático.

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