Expressões faciais

Miguel Carlos Madeira & Roelf J. Cruz Rizzolo
Extraído de Anatomia da Face, 5ª Edição, Editora Sarvier


Os músculos da expressão facial foram até aqui focalizados pelo aspecto puramente anatômico, mas é natural que, por suas próprias funções, eles devam ser observados pelo aspecto dinâmico, sob a regência do nervo facial. Suas contrações produzem na face variações na forma dos orifícios anatômicos, pregas e sulcos da pele que alteram a fisionomia e exteriorizam os sentimentos das pessoas­. São as manifestações faciais das alterações do comportamento, a expressão das emoções.

Emoção é um complexo psicofisiológico cujas reações dependem do sistema nervoso. Quem quer expressar seus sentimentos pode tentar fazê-lo por meio da fala e de gestos. Além dessa maneira intencional de se exprimir, há formas involuntárias de comportamento que revelam o estado emocional que a pessoa está vivendo. Os estados emocionais estão muito relacionados com os músculos da face e são por eles externados com grande variedade de detalhes.

Os músculos faciais não se movem comandados apenas por uma via motora voluntária (programas motores conscientes – trato corticonuclear). Eles também se contraem, para adotar expressões, através de uma via motora involuntária (programas motores não-conscientes – tratos supra-espinais descendentes e seus núcleos) acrescentada de um componente cerebelar, que controla o sinergismo e a harmonia dos músculos. Assim, a expressão, além de voluntária, pode ser involuntária, natural e espontânea, de mímica facial. O termo expressão facial fica reservado para a comunicação volitiva, a especificação de algo para melhor fazê-lo entendido. Um sorriso, por exemplo, pode ser espontâneo, automático, quando se gosta de uma piada (via não-consciente), mas pode ser também um sorriso “social” voluntário, programado (via consciente).

Certos movimentos expressivos da face como no sorrir, chorar, gritar são inatos, não são aprendidos. Outros são adquiridos por imitação; cada pessoa aprende a se comunicar com o seu rosto, socializando as suas expressões. É em virtude deste aprendizado que crianças podem se parecer com os pais adotivos ou certas pessoas evidenciam sua condição de estrangeiras mesmo sem falar. É por isto também que muitos cegos têm uma face inexpressiva.

Algumas expressões faciais são muito claras e revelam prontamente o sentimento da pessoa. Outras são difíceis de ser interpretadas. Na criança, as manifestações expressivas da face são autênticas, espontâneas e muito acentuadas. Depois ela aprende a moderar suas expressões. À medida que vai crescendo, a pressão social a ensina a guardar seus sentimentos para si mesma, reduzindo assim a movimentação de seus músculos faciais.

As vias nervosas motoras que controlam a expressão facial, como vimos anteriormente, apresentam “caminhos” voluntários e involuntários. Quando sorrimos de forma forçada, por exemplo, utilizamos uma via que não é a mesma que quando rimos espontaneamente. Isto tem implicações importantes no estudo criminalístico, já que é possível através do estudo pormenorizado da expressividade facial avaliar se o indivíduo está mentindo ou não. Tem implicações também no campo artístico, já que “escolas” de teatro utilizam este conhecimento para tornar o mais espontânea possível uma expressão que não é real. Tem, além do mais, implicações neurológicas. Quando pacientes apresentam a via motora voluntária da expressão facial lesada, são incapazes de rir de forma voluntária (forçada), mas não apresentam este problema durante risadas involuntárias. O contrário também é verdadeiro.


A sutileza da expressão facial, aliada aos gestos e às posturas corporais, adquire uma importância muito grande no relacionamento profissional-paciente. Esta forma impensada de comunicação pode fornecer dados acerca da personalidade do paciente mais autênticos do que os informados por ele próprio pela linguagem verbal. O dentista e o fonoaudiólogo devem estar atentos para a linguagem facial (e para as expressões corporais) do paciente para melhor analisá-lo consoante a suas tensões, neuroses, medo, ansiedade ou ainda sua coragem, tranqüilidade, entusiasmo, sinceridade. Contração muscular exagerada, por exemplo, pode significar tensão emocional, nervosismo, dor. Um sorriso, um brilho no olhar podem simbolizar aceitação, aprovação do tratamento recebido e das atenções do profissional. Um enrugamento da fronte pode ser interpretado como atenção, interesse ou então como dúvida, preocupação. A verdade é que a sensibilidade do clínico juntamente com noções que ele possa ter de psicologia muito o capacita para entender as variações na personalidade e no comportamento do seu paciente e facilita o estabelecimento de um bom relacionamento interpessoal.

Deve ter ficado claro que a expressão e a mímica facial constituem ligações dos caracteres físicos e psíquicos do homem e que o jogo contrátil dos músculos traduz os seus próprios sentimentos e emoções num determinado momento. Pode-se então, a partir de agora, tentar relacionar algumas expressões faciais com movimentações musculares específicas.




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A exteriorização da atenção (Fig. 1) afeta às regiões orbital e frontal. O ventre frontal do músculo occipitofrontal eleva o supercílio e a pálpebra superior (para se ver melhor), determinando o aparecimento de pregas horizontais na fronte. Os músculos da mastigação e o músculo orbicular da boca ficam algumas vezes relaxados, o que permite uma ligeira abertura da boca.

A reflexão e a concentração (Fig. 2) se traduzem pela contração do músculo corrugador do supercílio e em menor grau do músculo orbicular do olho, originando pregas verticais entre os supercílios.

A atenção interrogativa, quando se duvida ou diverge de alguma explicação, por exemplo, exterioriza-se pela contração de um dos corrugadores do supercílio e pela contração do frontal do lado oposto.

Ainda em torno das órbitas, em que se realizam as expressões fa­ciais mais nobres e intelectualizadas, pode-se vincular a ação do corrugador do supercílio à tradução do esforço, ira, estranheza, dor psíquica. O músculo prócero, cuja ação origina uma prega horizontal abaixo da glabela, manifesta-se nas demonstrações de tenacidade, rudeza e de ameaça e agressão.




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A surpresa e o espanto (Fig. 3) fazem afastarem-se as rimas bucal e palpebrais por maior ação do frontal e relaxamento dos elevadores da mandíbula. O susto e o medo (Fig. 4) são acentuações das ações musculares que caracterizam a surpresa. Se o medo evolui para terror, pavor, tem-se então um exagero das mesmas ações, com envolvimento também do orbicular da boca e do platisma para a contração dos lábios e da pele do pescoço.

As manifestações da alegria e da dor física exprimidas pelo riso e choro não são ligadas ao intelecto e se desenham na região bucal.




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No sorriso (Fig. 5) há uma contração moderada do complexo muscular bucinador, zigomático maior e risório, dando à boca uma configuração curva, côncava para cima. No riso (Fig. 6), as comissuras da boca são levadas mais para cima e para os lados pelo mesmo complexo muscular, podendo atuar também os músculos zigomático menor, levantador do ângulo da boca, levantador do lábio superior e da asa do nariz. O sulco nasolabial fica mais acentuado e as pálpebras aproximam-se. Se o riso evolui para gargalhada, todos esses músculos se contraem mais fortemente, acompanhados da contração do orbicular do olho, a ponto de provocar o aparecimento de “pés-de-galinha” e transbordamento de lágrimas. Por ação do levantador do lábio superior e da asa do nariz, as narinas aumentam seu diâmetro transverso.




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Nas manifestações de sofrimento, tristeza ou dor (Fig. 7) predomina a ação do músculo abaixador do ângulo da boca, que ao abaixar a comissura da boca dá a ela um aspecto arqueado de concavidade inferior, e ao sulco nasolabial, um alongamento característico. O sulco labiomarginal, quando existe, fica mais pronunciado. Pregas verticais surgem na área da glabela, resultado da movimentação do corrugador do supercílio. Todos estes caracteres dão à face aquele aspecto “longo”, comum nas pessoas pessimistas e desanimadas. No pranto ou choro (Fig. 8), a contração enérgica do abaixador do ângulo da boca, auxiliada pela contração do abaixador do lábio inferior e do mentoniano, traz todo o complexo muscular inferior da face para baixo, numa acentuação da expressão anterior. O orbicular do olho aproxima as pálpebras para completar o quadro.




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A função abaixadora dos músculos do lábio inferior concorre também para as expressões de desprezo, desdém, enfado, soberba (Fig. 9), nas quais toma parte bem ativa o músculo mentoniano no movimento de eversão do lábio. Combinadas à ação do platisma, estas contrações contribuem para as expressões de asco, repugnância. Destas duas últimas participa também o músculo nasal.

Os músculos peribucais isoladamente participam de outras expressões faciais, como é o caso do levantador do lábio superior (menosprezo, suficiência, ameaça), do bucinador unilateral (ironia, zombaria) (Fig. 10) e do orbicular da boca (raiva, ira) (Fig. 11).







Enfim, existe uma enorme variedade de detalhes na sucessão dinâmica de expressões que a face assume, concedendo ao indivíduo traços fisionômicos apropriados a cada situação. Nem sempre é fácil interpretá-los. Essa dificuldade interpretativa aumenta quando a manifestação do sentimento não é real. É que o homem aprendeu com a hipocrisia a usar a face como máscara que oculta seus verdadeiros sentimentos.

Com o avançar da idade, a pele vai perdendo sua elasticidade e os sulcos transitórios, ocasionados pela contração muscular, gravam-se definitivamente na face. Os músculos que mais se contraíram durante a vida poderão deixar esculpidas, na velhice, faces joviais, tristes, ameaçadoras e com outros traços que revelam como foi a existência do indivíduo.

Ao se tentar “ler” a fisionomia das pessoas, deve-se levar em conta que as expressões dependem muito dos vasos da face (palidez, rubor) e da mobilidade e brilho dos olhos (considerados a “janela da alma”) e não somente das contrações musculares.

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