A face

Miguel Carlos Madeira
Extraído de Anatomia da Face, 5ª Edição, Editora Sarvier


“A face serve para: 1) orientação no espaço, 2) detecção de fontes de energia (alimento), 3) orientação do animal à fonte de energia, 4) captura de energia, 5) comunicação (no homem).” E. L. Du Brul

Nos animais, a cabeça é o principal órgão de preensão, de defesa e de ataque. Modificações filogenéticas, contudo, fizeram com que no ser humano a cabeça passasse a ter a função de recepção de alimento e ar e se tornasse o centro das emoções e da fala.

Nesse capítulo da evolução biológica, o grande evento é a postura ereta, que traz consigo uma série de modificações ou rearranjos somáticos. Para se adaptar à essa postura, o crânio ficou mais alto e mais curto. Assim, quase esférico, melhor se equilibra sobre a coluna vertebral, sem a necessidade de uma musculatura nucal muito possante. A evolução do encéfalo concomitante com a redução da face tornou possível a visão estereoscópica. A visão melhorada facilitou a coordenação dos movimentos nas extremidades. O homem, então, usando as mãos na defesa e ataque e no preparo de ferramentas e de seus alimentos, dispensou as exigências de fortes maxilares, libertando assim o crânio de forte pressão muscular. Desta maneira, as modificações do aparelho mastigador referem-se a um pequeno desenvolvimento dos maxilares e de seus músculos, combinado com a redução do número e tamanho dos dentes.

Na face, desenvolvem-se os músculos da expressão facial, característicos do mamífero. Do peixe ao réptil (sem tecido muscular entre a cútis e os ossos do crânio), as expressões faciais são limitadas à abertura e ao fechamento da boca e dos olhos. No homem, a movimentação da pele da face alcança alta hierarquia, permitindo a exteriori­zação das emoções e sentimentos, com grande variedade de detalhes. O resultado das expressões habituais do indivíduo, transmitidas à face para espelhar seus estados anímicos, é o que se define como fisionomia. É a imagem real do indivíduo, dada pela relação de sua personalidade (imagem interna) com sua aparência física (imagem externa), as quais, ajustadas, se aproximam da unidade.

Desta forma, a face representa a pessoa toda!

Ela atrai nossa atenção desde que somos bebês e continua a nos fascinar por toda a vida. É natural, portanto, que nela se concentrem os maiores esforços de promoção e conservação de sua estética e beleza. Verdadeiros milagres são produzidos para tornar uma face estética (distribuição proporcional, harmônica e combinada de suas formações anatômicas superficiais) e bela (resultado de uma estética e de uma sã personalidade refletida).

O dentista tem um papel preponderante na manutenção da estética facial, visto que a normalidade dos arcos dentais e dos maxilares é essencial à harmonia e ao equilíbrio das linhas da face. O interesse do dentista pela face refere-se também à observação criteriosa, que pode revelar certas condições orientadoras do dia­gnóstico. Em medicina é elemento importante para o diagnóstico de muitas doenças.

Quanto à morfologia, as variadas formas de contorno da face le­varam à classificação em quadrada, ovóide e triangular. O dente incisivo central superior tem seu contorno correspondente a essas formas geométricas fundamentais para uma face harmoniosa.

O contorno da face é afetado por variações no desenvolvimento muscular, proeminência da glândula parótida e distribuição da gordura subcutânea.

Os traços faciais são adquiridos por hereditariedade. Podem, naturalmente, mais tarde, ser reforçados ou enfraquecidos pelo uso ou não-uso. Somente o relevo da pele é adquirido individualmente.

A cor da pele depende sobretudo do agrupamento de pigmentos presentes, da espessura da epiderme e da circulação. Nos brancos, epiderme espessa: cor amarelada e que aumenta com a idade; delgada: tom róseo, devido aos vasos do cório. Nos negros, a quantidade do pigmento é maior e o fluxo de sangue provocado pelo frio ou por excitação psíquica torna a pele baça. Neles, a diminuição do afluxo sanguíneo ou na presença de anemia (palidez nos brancos) põe em evidência a cor da pele (fica mais escura).

Os artistas copiam muito a face, resultando daí a necessidade do conhecimento da anatomia e de normas de proporção ou cânones naturais (ideais). Um dos critérios estéticos faciais fundamentais é o que divide a face em três segmentos iguais: do nível de implantação dos cabelos ao nível das sobrancelhas (fronte); deste nível até a base do nariz; e da base do nariz à base da mandíbula, no mento. O espaço entre os dois ângulos mediais dos olhos deve ser igual à largura de cada fenda palpebral e à largura da base do nariz. A altura do nariz deve ser igual ao comprimento da rima da boca.

Mas não há face verdadeiramente simétrica. O que há é uma assimetria normal, com as metades direita e esquerda ligeiramente diferentes. Os artistas estão cientes de que essa variação normal é necessária para dar vida às suas pinturas. Dizem que uma face perfeita é monótona e inexpressiva, como as imagens em cera nos museus.

Por ser a face altamente valorizada como o segmento corpóreo mais representativo da pessoa e como centro das atenções para uma busca estética, a sua alteração com a chegada da velhice traz inúmeras preocupações. Mas é a deformação ou desfiguração facial que faz o indivíduo reagir com um profundo sentimento de dor, medo e ansiedade, relacionado com o grau de afetividade reprimida dentro de si. Esse trauma pode levar a depressão, marginalização e alienação social.

Resta agora uma indagação. Podem-se prever modificações para a face humana do futuro?

Efetivamente, nós não somos os representantes de um estágio final de evolução. Os estudos sugerem fortemente que a face tende a se modificar mais e mais. A redução gradativa sofrida pelo aparelho mastigador continuará? Há evidências de que os dentes terceiro molar e incisivo lateral superior irão desaparecer. A Antropologia já demonstrou que há apenas mil anos (um breve lapso de tempo) a face dos ingleses era mais larga no segmento respiratório (talvez isto dependesse de uma maior vida no campo, ao ar livre). Agora, se as tendências presentes continuarem, o homem do futuro terá maxilares menores e sua capacidade encefálica será, em média, maior. Entretanto, para que essas tendências evolutivas tenham continuidade, é necessário que a seleção natural, um dos motores propulsores de processo evolutivo, continue agindo sobre elas. De fato, a existência de um terceiro molar (e os problemas que isto eventualmente pode acarretar) não mais representa uma característica negativa sobre a qual a seleção natural agir. Assim, é hoje necessário adotar uma postura cautelosamente crítica ao analisar previsões futurísticas sobre nossa evolução.

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